terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Quando mamãe partiu...



Não são apenas flores. Não se iluda.
Compartilhar uma vida significa penetrar em águas profundas e desconhecidas. Há boas surpresas. E, há frustrações também. Mas, no momento em que perdi o ar, e a correnteza tornou-se forte a ponto de me fazer afundar, senti uma mão resgatar-me.
Era mais um outubro a pertubar-me com um calor escaldante. Porém, tornou-se realmente insuportável com o desenrolar dos dias. Não apenas os graus elevados do verão me atormentavam, mas o fato da pessoa mais importante de minha vida vivenciar seus últimos suspiros.
Recebi a notícia dentro do provador de uma loja, e, lembro-me nitidamente de deixar as roupas caírem de minhas mãos e correr aflita sabe lá Deus para onde.
Sentia-me tão desnorteada. Era como se uma imensa fenda no chão me sugasse para um abismo de dor e abandono. Não tolerava a possibilidade de encarar novamente a face gélida da morte. Já havia percorrido prematuramente essa ruela escura e repudiava a idéia de deparar-me com seus assombros.
Várias cenas percorriam minha mente: eu e minha mãe juntas em alguma de nossas viagens, ela aos cuidados comigo nos dias de doença, seus beijos e abraços, seu cheiro de flor-de-laranjeira, recostada ao lado da pia no preparo do café da manhã.
Parecia impossível. Na noite anterior conversávamos zombateiramente sobre a morte. Despedimo-nos alegremente no quarto do hospital cheias de sonhos e planos. A intervenção cirúrgica a que mamãe seria submetida era simples. Não havia medo em seus olhos. Ou minha fé cegava-me?
Dez dias em coma, uma dor insuportável, lágrimas e gemidos. Em nosso último encontro, balbuciei meu amor em seus ouvidos. Cantei sua canção predileta, com esperança de que talvez magicamente, fosse ouvida.
As intermináveis horas entre a notícia da morte, a penúria do velório, e o odor desagradável do enterro, havia uma mão em meu ombro. Nos momentos mais agudos de meu sofrimento, havia um colo.
Nos dias que se seguiram, ou melhor, meses, tudo era escuridão. Tentava me reorganizar internamente. Estava perplexa com o rumo inesperado da vida. Estava entregue às dores que percorriam meu corpo. Havia perguntas, negação, desespero, inquietude, ira e morte em mim. Sim. Sentia-me morta e desestimulada a envolver-me com a vida novamente.
Eu estava fragilizada e despedaçada. Mas não estava só. A verdade era que poucas, bem poucas pessoas estiveram presentes naqueles dias tenebrosos. Conhecidos são muitos, amigos poucos e grandes e verdadeiros amigos, escassos.
Mas ele, que era meu noivo, e hoje é meu marido, acolheu-me em seus braços sem restrições. Esteve presente todas as horas de seu dia que eram possíveis. Abriu a janela, permitiu o Sol entrar. Ouviu meu choro horas a fio, acalmou-me com suas palavras. E, quando já não havia o que ser dito, apenas me abraçou. Terna e intensamente.
Debruçou seus olhos na minha tristeza e tentou alegrar-me. Com pequenos gestos, sorrisos sorrateiros, frases engraçadas.
Não desistiu de mim, mesmo eu já tendo desistido. Não criou desculpas para afastar-se e seguir sua vida. Não deu costas à minha crise. Foi paciente e dedicado. Leal e companheiro.
Assim, nosso amor brotou. Assim fortaleceu-se. Assim aprendemos a lidar com os piores tremores em nossa vida. Numa entrega total, desvencilhada de egoísmo.
O importante é saber que sempre haverá essa mão, esse colo, esse consolo. Até nas águas mais profundas.

Um comentário:

Drika disse...

Lá vc consegue me emocionar , suas palavras tocam meu coração... hoje qdo conheço sua dor oque posso dizer...a não ser pedir perdão por estar ausente num momento tão doloroso como este ? vc eu sei que me perdoa mas será que eu coseguirei me perdoar ?desculpa as palavras nào pude evitar... mesmo tarde estou aqui Dri